“Às vezes me lembro dele. Sem rancor, sem saudade, sem tristeza. Sem nenhum sentimento especial a não ser a certeza de que, afinal, o tempo passou. Nunca mais o vi, depois que foi embora. Nunca nos escrevemos. Não havia mesmo o que dizer. Ou havia? Ah, como não sei responder as minhas próprias perguntas! É possível que, no fundo, sempre restem algumas coisas para serem ditas. É possível também que o afastamento total só aconteça quando não mais restam essas coisas e a gente continua a buscar, a investigar — e principalmente a fingir. Fingir que encontra. Acho que, se tornasse a vê-lo, custaria a reconhecê-lo.
“Ah garoto, você ainda vai se arrepender. Você ainda vai olhar outros rostos e só vai ver o dela, vai escutar o toque do seu celular indicando que tem alguém ligando e vai suplicar que seja ela a dona da voz do outro lado da linha. Vai ver o jogo do seu time de futebol e não vai ter muita graça sem ter ela para torcer contra. Vai ouvir a música de vocês e não terá ela para dançar de um jeito desengonçado e bobo fazendo você sorrir feito uma criança. Vai ver o filme preferido de vocês no dia de frio e vai sentir falta da cabeça dela encostada no seu peito, daquele jeito, daquele jeito em que ela podia escutar as batidas do seu coração. Vai olhar nas contra-capas dos seus cadernos escolares e vai ver apenas o nome dela, em todos os cantos de cada folha. Vai abrir o seu armário e vai ver o seu casaco que ela costumava vestir nos dias de frio, que a propósito, era 2 vezes maior que seu corpo. Vai reler as cartas que elas escreveu quando vocês estavam juntos, e não vai ter ela para dizer que “ficou horrível”. Vai lembrar de promessas e planos que vocês fizeram juntos para um futuro distante, e vai sentir falta da voz fina dela no final te dizendo “Você promete mesmo?”. Vai conhecer pessoas que possui o nome que vocês tinham escolhido um dia para o filho de vocês, e vai lembrar de toda a teimosia até chegar a um acordo de ambas as partes. Vai passear nos lugares que costumavam ir e não vai ter a mão dela segurando a sua. Você vai sentir falta dela, garoto. Sabe por que? Porque você a deixou escapar.
“E naquela noite eu chorei, chorei mais do que eu havia chorado em toda a minha vida. Não sabia ao certo o por que estava chorando, certamente devia ser por sofrimento, quem sabe. Há coisas dentro de mim que eu realmente não sei explicar. Era uma dor incomparável, uma dor que parecia não ter fim. Sinto que era um sofrimento que acontecia por falta de amor. Sim, falta de amor. Não digo amor de alguém, e sim amor próprio. Preciso me amar mais, preciso me valorizar mais, preciso cuidar mais de mim e dos meus preciosos sentimentos. Irei parar de chorar por alguém que não me merece, alguém que não merece o meu esforço e muito menos os meus belos sorrisos. Sei que um dia vou encontrar uma pessoa que me faça sorrir até mesmo sem nenhum motivo, que me faça sorrir apenas com um simples olhar. Sabe aquele olhar que nos deixa sem jeito? Aquele olhar profundo e que dê para enxergar toda a felicidade que um dia eu procurei.
“Vai preparada para vê-lo beijando outra. Vai com a finalidade de encher a cara, e esquecer que, um dia, aquela com ele era você.
“Mas se eu parar de te procurar, aí é a sua vez de me entender.
“Ela chorou. Eu não pude fazer nada. Estávamos a quilômetros. E foi a coisa mais triste que já me aconteceu.